A notícia de que o Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu sua investigação e propôs uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros não é apenas um golpe econômico, é um monumento ao ridículo diplomático. E, desta vez, como bem alertou Miriam Leitão, o perigo é real e burocrático. Não se trata daquele “tarifaço” histriônico e improvisado que Donald Trump tirou da cartola no ano passado, posteriormente anulado pela Suprema Corte americana. Desta vez, eles calçaram as sandálias da legalidade e invocaram a seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Seguiram os ritos. É o protecionismo com verniz institucional, aquele que a Justiça deles dificilmente derruba.
Mas o que realmente move as engrenagens dessa ofensiva não são os números do comércio, até porque os americanos exportam mais para cá do que nós para lá desde 2009. O que move essa engrenagem é uma mistura de pauta ideológica encomendada e um profundo rancor geopolítico. O relatório destila queixumes que vão desde as decisões do STF sobre as redes sociais (leia-se: o xilique global de Elon Musk, Zuckerberg e companhia) até o combate à corrupção.
No entanto, a joia da coroa desse manifesto da hipocrisia atende por três letras: P-I-X.
O crime de ser eficiente
Sim, o Pix. O nosso sistema de pagamento instantâneo, a ferramenta que bancarizou milhões de invisíveis, que fez o vendedor de água de coco na praia e o microempreendedor da periferia operarem na velocidade do século XXI, foi fichado pelo governo americano como uma “prática comercial desleal”.
Segundo os luminares de Washington, o Banco Central do Brasil comete o pecado capital de ser, ao mesmo tempo, regulador e operador de um sistema que ousa… funcionar bem demais. O crime real do Pix, na verdade, é não pagar pedágio. É limitar as taxas abusivas que sustentam os impérios das bandeiras de cartão de crédito americanas.
A eficiência brasileira virou ofensa ao livre mercado deles. É a lógica do cassino: “Se a banca começa a perder o monopólio das fichas, ela muda as regras do jogo”. O governo brasileiro levou dados, provou que a bancarização no médio prazo expande o mercado para todo mundo, inclusive para os norte-americanos. Em vão. Quando a ideologia entra pela porta, os fatos pulam pela janela.
A cortina de fumaça
Para disfarçar o ataque ao bolso do consumidor e ao sucesso tecnológico alheio, o relatório joga no ventilador os suspeitos de sempre. Fala em desmatamento ilegal, ignorando que o Brasil se prepara para anunciar em 2026 a menor taxa de desmatamento desde 1988, com dados de satélite escancarados para o mundo. Reclama do etanol, onde eles é que fogem da reciprocidade há anos.
Não há debate comercial ali. Há política paroquial, temperada pelas recentes visitas de cortesia da oposição, extremista brasileira, leia-se a família Bolsonaro e agregados, a Washington. O tarifaço já virou combustível para a nossa antecipada campanha eleitoral de 2026. A direita vai querer culpar o Planalto, já a esquerda vai denunciar o imperialismo. E, no meio do tiroteio verbal, o exportador brasileiro e o trabalhador da indústria nacional pagam a conta.
15 de julho
Temos até o dia 15 de julho para negociar, antes que o garrote se feche. O Itamaraty certamente não abandonará as mesas de conversa, mas é bom o país se preparar para o pior. Se os EUA tratam uma inovação financeira genuína e o direito de um país soberano de regular seu próprio território como “ameaças irrazoáveis”, a reciprocidade comercial via Camex deixa de ser uma opção orgulhosa para se tornar uma necessidade de sobrevivência.
No fundo, o que incomoda a ala mais ideológica da Casa Branca não é o nosso déficit ou nosso superávit. É perceber que, em certos aspectos da modernidade e da dignidade, o quintal aprendeu a andar sozinho. E o Pix, meus caros, é a prova digital de que nós não precisamos mais pedir licença para prosperar.
Fausto Picarelli
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