O problema dos Estados Unidos é descobrir que viraram Brasil sem terem aprendido a sambar

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✏️ Resumo rápido:

Existe algo de poeticamente humilhante na imagem da tinta descascando do espelho d’água do Lincoln Memorial poucos dias depois da pomposa reforma ordenada por Donald Trump.

Uma obra de US$ 14,7 milhões (R$ 75.544.770,00 em 19/06/26).
Sem licitação, feita às pressas, vendida como símbolo de grandeza nacional e entregue com acabamento de banheiro de rodoviária em fim de feriado.

A América descobriu o reboco frouxo.

Durante décadas, muitos brasileiros cresceram assistindo filmes americanos como quem observava uma civilização superior onde tudo funcionava: estradas perfeitas, pontes impecáveis, instituições sólidas, políticos sérios e obras públicas que não soltavam pedaços na água duas semanas depois da inauguração.

Pois bem. Bem-vindos ao Terceiro Mundo emocional do século XXI.

A cena é maravilhosa porque destrói um mito profundamente colonial que ainda vive na cabeça de muita gente por aqui, que é acreditar que corrupção, improviso, vaidade política e desperdício de dinheiro público seriam exclusividade latino-americana.

Não são.

Os Estados Unidos apenas possuem orçamento maior, marketing melhor e uma capacidade incomparável de transformar gambiarra em patriotismo.

A reforma do Lincoln Memorial parece saída de uma prefeitura brasileira administrada por um influencer imobiliário obcecado por tinta azul. O sujeito olha para um monumento histórico e pensa: “Sabe do que isso precisa? De uma demão de piscina de resort.”

E claro que havia urgência patriótica. Tudo precisava ficar pronto para as comemorações dos 250 anos da Independência americana. Nada mais perigoso para dinheiro público do que político querendo entregar obra simbólica antes de evento importante.

É uma lei universal.

Se deixar, inauguram até viaduto sem concreto.

O mais divertido é observar o discurso oficial americano colidindo frontalmente com a realidade visual. Trump queria transformar o espelho d’água em símbolo de grandeza estética nacional. O resultado foram algas verdes, tinta boiando e turistas olhando para aquilo com a mesma expressão do brasileiro diante de reforma superfaturada de praça municipal.

O império finalmente experimentando o sabor do próprio reboco.

E há uma ironia histórica deliciosa nisso tudo acontecer justamente no Lincoln Memorial, o monumento dedicado ao presidente que preservou a unidade dos Estados Unidos durante a Guerra Civil. Hoje o país parece incapaz de preservar nem a tinta do fundo da piscina.

Talvez seja o símbolo perfeito da era Trump.

Tudo é cenográfico.
Tudo é urgente.
Tudo é grandioso.
Tudo é televisionado.
E quase nada parece construído para durar.

A obsessão contemporânea por aparência produziu um fenômeno curioso: governos passaram a administrar estética como se fosse política pública. Não importa resolver o problema estrutural das algas. Importa pintar de azul para ficar bonito na fotografia aérea.

É o urbanismo do Instagram.

Políticos modernos não querem necessariamente governar. Querem inaugurar. Querem drone. Querem vídeo institucional com música épica e câmera lenta.

A tinta descascando talvez seja apenas a metáfora perfeita do nosso tempo: uma civilização inteira pintando superficialmente problemas profundos enquanto a estrutura apodrece por baixo.

O mais impressionante é que, diante da lambança, ainda existem defensores dizendo que as críticas são “partidárias”. Isso também é universal. Em qualquer lugar do planeta, quando obra pública dá errado, surge imediatamente alguém dizendo que o problema não é o desastre em si,  é quem fotografou o desastre.

A polarização transformou até tinta soltando em guerra ideológica.

No fundo, talvez exista algo reconfortante nisso tudo.

Durante anos, países periféricos ouviram sermões americanos sobre eficiência, meritocracia, gestão e profissionalismo. Agora observam Washington brigando com algas, tinta e contratos suspeitos enquanto turistas reclamam que o monumento estava melhor antes da reforma.

O sonho americano finalmente revelou estar alinhado ao padrão de acabamento internacional.

E descobriu, da pior maneira, que não existe superpotência imune ao velho encontro entre vaidade política, pressa administrativa e empreiteiro otimista demais.

Então tá!

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