Netanyahu descobriu tarde demais que Trump não cultiva aliados, cultiva interesses

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✏️ Resumo rápido:

Durante anos, Benjamin Netanyahu vendeu a imagem de que possuía uma espécie de linha direta com a Casa Branca republicana. Um encantador de presidentes americanos. Um homem capaz de dobrar Washington com discursos duros, mapas coloridos e aquela eterna expressão de quem acabou de sair de uma reunião com Deus para resolver assuntos urgentes do planeta.

Mas Donald Trump está mostrando ao mundo uma lição elementar da política imperial: o vassalo é útil até atrapalhar os negócios.

E Netanyahu passou a atrapalhar.

A humilhação pública desta semana talvez tenha sido uma das mais violentas já impostas por um presidente americano a um premiê israelense em décadas. Trump praticamente declarou que Israel virou um problema operacional. Pior: sugeriu que a Síria — a Síria! — poderia lidar melhor com o Hezbollah do que o próprio governo israelense.

Há frases que entram para a diplomacia. E há frases que entram para a necropsia política.

“Você não precisa demolir um prédio de apartamentos toda vez que estiver procurando alguém”, disse Trump. Traduzindo do trumpismo para o português: “Netanyahu perdeu completamente a mão”.

A ironia histórica é deliciosa. Durante décadas, Washington justificou praticamente toda ação israelense no Oriente Médio como exercício legítimo de defesa. Agora o presidente americano parece olhar para Netanyahu com a mesma expressão de um síndico diante de um morador que “exagerou um pouco” na reforma e derrubou metade do prédio.

O mais devastador não foi a crítica. Foi a alternativa apresentada.

Trump insinuou que Ahmed al-Sharaa, o novo líder sírio — um ex-jihadista sunita convertido em parceiro diplomático improvisado do Ocidente — talvez seja mais “eficiente” e “responsável” do que Israel no enfrentamento ao Hezbollah.

É uma frase tão absurda geopoliticamente que chega a parecer piada de stand-up escrita sob efeito de energético vencido. Mas o subtexto é claríssimo: Trump não confia mais em Netanyahu para administrar a guerra sem incendiar a região inteira.

E isso muda tudo.

Porque Netanyahu apostou todas as fichas na guerra. Como vários líderes acuados antes dele, acreditou que conflito externo poderia reorganizar o caos interno. A lógica é antiga: quando o governo vai mal, inventa-se uma emergência nacional e convoca-se a população para salvar a pátria. Funciona até o momento em que a guerra deixa de parecer heroísmo e começa a parecer carnificina televisionada.

Agora, a poucos meses das eleições, Netanyahu aparece encurralado pelo próprio aliado histórico. Não destruiu o programa nuclear iraniano. Não derrubou o regime de Teerã. Não eliminou o Hezbollah. E ainda conseguiu algo raro: irritar Donald Trump, um homem cuja paciência diplomática dura menos que iogurte fora da geladeira.

Trump percebeu que a continuidade do conflito ameaçava diretamente seus interesses eleitorais e econômicos. Petróleo pressionado, instabilidade global, desgaste militar e imagens diárias de destruição no Líbano começaram a produzir um efeito político tóxico. O presidente americano não quer entrar em campanha carregando nas costas uma guerra longa no Oriente Médio. Nenhum presidente americano quer. O Vietnã ainda assombra Washington como um fantasma fumando no corredor da Casa Branca.

Então Trump fez o que impérios fazem quando aliados menores deixam de ser úteis: puxou o tapete em praça pública.

A relação entre os dois homens hoje parece casamento de bilionários em processo de divórcio litigioso. Sorrisos para as câmeras, vazamentos venenosos nos bastidores e uma disputa silenciosa sobre quem será responsabilizado pelo desastre.

Netanyahu talvez tenha cometido o erro clássico dos líderes ultranacionalistas: acreditar que a aliança era ideológica. Não era. Era transacional.

Trump não tem aliados permanentes. Tem interesses momentâneos.

E, neste momento, Benjamin Netanyahu deixou de ser ativo estratégico e passou a ser custo político.

Então tá!

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