A pesquisa analisou dados de 307 cidades e apontou que o calor altera o comportamento humano, elevando a irritabilidade e o consumo de álcool. Cientistas alertam que o Brasil está entre os países que mais sofrerão com o aumento de mortes causadas por ondas de calor até 2080.
USP – Além dos impactos diretos já conhecidos na saúde pública, como a desidratação e as complicações cardiovasculares, o aumento das temperaturas globais e a intensificação das ondas de calor também podem influenciar diretamente as estatísticas de segurança pública no nosso continente. É o que aponta um estudo inédito publicado pelo projeto Saúde Urbana na América Latina (Salurbal-Clima), com participação direta da Faculdade de Medicina da USP.
A pesquisa identificou uma associação estatística clara entre os dias de calor intenso e o crescimento do risco de homicídios em 307 cidades latino-americanas, incluindo diversos municípios brasileiros.
Abaixo, veja como o clima influencia as taxas de violência e os alertas dos cientistas sobre o futuro das cidades brasileiras:
Como o calor influencia o comportamento e a violência?
A relação entre o clima e a agressividade humana é investigada pela ciência desde os anos 1970. De acordo com a pesquisadora Sara Lopes de Moraes, do Departamento de Medicina Preventiva da USP e primeira autora do artigo, as temperaturas elevadas geram alterações psicológicas e sociais que servem de gatilho para a violência urbana:
“Os pesquisadores começaram a observar que, em dias mais quentes, há uma maior probabilidade de as pessoas ficarem mais irritadas e agressivas. Além disso, ocorre uma mudança na rotina, que pode aumentar o consumo de álcool e, consequentemente, favorecer comportamentos mais violentos.”
A cientista faz questão de destacar um ponto importante na metodologia: o estudo não comparou se cidades naturalmente mais quentes são mais violentas do que cidades frias. O foco foi analisar cada município de forma isolada ao longo de quase duas décadas (2000 a 2019) e verificar se, nos dias em que os termômetros marcavam temperaturas acima da média histórica daquela localidade, ocorria um pico nas mortes por homicídio.
A associação foi confirmada em diferentes faixas etárias e atingiu tanto homens quanto mulheres. Atualmente, cerca de 0,61% dos homicídios totais registrados na América Latina podem ser atribuídos diretamente aos fatores decorrentes do calor.
Embora o percentual pareça pequeno, ele se torna um alerta urgente diante do cenário atual de mudanças climáticas. A violência é reconhecidamente um fenômeno complexo guiado por problemas estruturais crônicos (como a desigualdade social, a atuação do crime organizado e a violência de Estado). No entanto, o clima extremo atua como um catalisador, agravando as tensões sociais já existentes.
Brasil está na zona de maior risco global para ondas de calor
Outra pesquisa internacional e complementar desenvolvida por um grupo colaborativo de cientistas, com participação da meteorologista Micheline Coelho e do médico patologista Paulo Saldiva, ambos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, aponta um cenário ainda mais preocupante para o futuro do país a médio e longo prazo.
De acordo com as projeções publicadas na prestigiada revista científica PLOS Medicine, as mortes associadas a ondas de calor devem crescer de forma alarmante no período entre 2031 e 2080. Os modelos matemáticos, baseados nos mesmos padrões climáticos mundiais utilizados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU), apontam que Brasil, Colômbia e Filipinas serão as nações mais castigadas do mundo, enquanto a Europa e os Estados Unidos sofrerão menos impactos.
No caso específico do Brasil, as projeções revelam:
- Cenário de baixa ocorrência de ondas de calor: O número de mortes causadas por picos de calor deve subir até 25% no país.
- Cenário de alta ocorrência (pior cenário de emissão de gases estufa): O volume de óbitos diretamente ligados ao calor pode disparar em até 75%.
O estudo mostra que as áreas do planeta situadas próximas à linha do Equador e nas zonas tropicais enfrentam um risco muito superior em comparação com as áreas temperadas. No pior cenário projetado globalmente, a mortalidade por calor pode subir impressionantes 2000% na Colômbia.
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O colapso da termorregulação corporal
A meteorologista Micheline Coelho explica que a onda de calor, caracterizada pelo clima muito acima do habitual por vários dias consecutivos, torna-se fatal porque destrói a capacidade de termorregulação do organismo humano, que trabalha para manter nossos órgãos e funções biológicas estáveis em torno de 37°C.
“Quando o ambiente está muito quente, o organismo não consegue fazer essa troca e a regulação do nosso corpo perde o equilíbrio, podendo levar a graves problemas ou à morte. O desequilíbrio da temperatura corporal promove mudanças em hormônios e enzimas, atingindo os mais diversos órgãos.”
A necessidade urgente de um novo planejamento urbano
Para os pesquisadores da USP, a junção dos dois estudos prova que os efeitos das mudanças climáticas não são preocupações apenas para o futuro, mas fatores que já alteram a dinâmica social e de saúde das cidades.
Os cientistas recomendam que as prefeituras e governos passem a adotar imediatamente políticas públicas rigorosas voltadas à adaptação das cidades ao aquecimento global. Entre as principais soluções propostas para reduzir o calor e, consequentemente, conter os riscos à vida humana e os picos de criminalidade, estão:
- Resfriamento Urbano: Investimento maciço em arborização de ruas, criação de praças, preservação de áreas verdes e parques públicos para combater as “ilhas de calor” no asfalto;
- Sistemas de Alerta: Criação de canais de comunicação rápidos de emergência da Defesa Civil para avisar a população sobre a chegada de eventos climáticos extremos;
- Tecnologia e Engenharia: Desenvolvimento de projetos de moradias populares inteligentes e com isolamento térmico eficiente;
- Mitigação Global: Cumprimento de metas rígidas para a redução drástica na emissão de gases poluentes e de efeito estufa.
E você, morador? Tem percebido que as ondas de calor têm ficado mais frequentes e sufocantes nos últimos anos aqui na nossa região? Nota se o humor das pessoas muda ou fica mais impaciente nos dias abafados de verão?
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