Especialista afirma que importar modelo de El Salvador para a segurança é engano

Dezenas de detentos de cabeças raspadas e sem camisa, agrupados e sentados bem próximos uns dos outros no chão de uma prisão, com as mãos cruzadas atrás da cabeça durante uma operação de vistoria ou transferência (imagem associada ao Centro de Confinamento do Terrorismo - CECOT, em El Salvador).
Foto: Reprodução/Redes Sociais

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✏️ Resumo rápido:

Especialista refuta propostas de “bukelização” na segurança pública e alerta que super-encarceramento financia e expande o crime organizado.

REDAÇÃO– A adoção do modelo de segurança pública de El Salvador no Brasil, processo conhecido como “bukelização”, tem sido defendida por candidatos em períodos eleitorais, sobretudo de direita e extrema-direita. A estratégia adotada pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele baseia-se no endurecimento de penas, no encarceramento em massa e na supressão de garantias constitucionais.

Os defensores da proposta utilizam como argumento a redução expressiva nos índices de violência em El Salvador. O país da América Central registrava 106 mortes violentas para cada 100 mil habitantes em 2015, figurando como o mais violento do mundo, e reduziu a taxa para menos de dois homicídios por 100 mil habitantes em 2023.

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Em entrevista ao portal Brasil de Fato, o coordenador de Advocacy da organização Justa, Felippe Angeli, rebateu a utilização dos dados numéricos como comprovação de eficiência e classificou a medida como populismo penal. O especialista apontou que a tentativa de aplicar a fórmula no contexto brasileiro constitui uma estratégia de marketing político que desconsidera diferenças demográficas, sociais e históricas.

Angeli destacou que El Salvador possui cerca de 6 milhões de habitantes, população inferior à de Belo Horizonte, não guardando similaridades com o território brasileiro além da localização no continente sul-americano. Para o especialista, a proposta busca respostas simplificadas para um problema complexo como a segurança pública.

Falha no modelo de super-encarceramento

 

A estratégia de encarceramento em massa, que envolve promessas de criação de centenas de milhares de vagas em presídios, desconsidera o histórico das políticas adotadas no Brasil nos últimos vinte anos. Segundo o coordenador do Justa, a população prisional brasileira registrou um aumento de 500 mil pessoas em duas décadas.

A expansão do sistema carcerário brasileiro no período teve como consequência a proliferação e o fortalecimento de facções criminosas dentro dos estabelecimentos prisionais em todo o país. O especialista argumenta que o crescimento do domínio territorial por organizações criminosas demonstra a ineficácia em insistir na ampliação das prisões como solução para a segurança da população.

Garantias constitucionais e modelo nacional

 

O coordenador refutou a ideia de que o combate à criminalidade seja incompatível com o respeito aos direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição. Ele avalia que o debate opõe a construção de uma política pública estruturada de segurança ao estabelecimento de um Estado totalitário sem limitações no combate aos criminosos.

Para Angeli, o rigor na punição de crimes não exige o abandono das garantias constitucionais, que são apontadas por ele como fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade justa e segura. O especialista defende a consolidação do cumprimento da legislação dentro da democracia, sem recurso a discursos de exceção.

A solução para o cenário nacional exige a elaboração de um modelo próprio, pautado pelas experiências e especificidades do país, considerando pautas como a desmilitarização e a multidisciplinaridade na segurança. O integrante da organização Justa defende que as candidaturas busquem respostas adequadas à realidade brasileira em vez de reproduzir modelos externos de países como El Salvador, Noruega, África do Sul ou China.

Assista a entrevista no canal do BdF no YouTube

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