Diagnóstico precoce pode evitar até 80% dos casos de cegueira infantil

O uso de telas faz com que pisquemos menos, por estarmos focados no conteúdo assistido - Foto: Eugene Bolshem/Pexels

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✏️ Resumo rápido:

No mês em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Ocular, pediatras e oftalmologistas alertam para a “janela de oportunidade” até os 7 anos e o impacto devastador do uso excessivo de telas no desenvolvimento da visão das crianças.

SAÚDE – O Dia Mundial da Saúde Ocular, celebrado em 10 de julho por iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), traz à tona um alerta urgente sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Segundo dados da entidade, nada menos do que 75% dos casos de deficiência visual no mundo poderiam ser evitados ou tratados se descobertos a tempo. No Brasil, onde o IBGE aponta que mais de 6 milhões de pessoas convivem com algum grau de limitação visual, a realidade não é diferente, e a falta de assistência precoce cobra o seu preço mais alto logo na infância.

De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cerca de 20% das crianças em idade escolar apresentam alterações visuais — principalmente miopia, hipermetropia e astigmatismo. Em casos mais graves, a falta de diagnóstico rápido na infância pode ser fatal: cerca de 500 mil crianças ficam cegas no mundo a cada ano, e quase 60% delas acabam falecendo devido às mesmas causas que provocaram a perda da visão. No entanto, o CBO estima que 80% de todos os casos de cegueira infantil são evitáveis ou tratáveis.

Abaixo, entenda por que os primeiros anos de vida são cruciais para a visão, os perigos do excesso de telas e os sinais que os pais devem monitorar:

A janela de ouro: Plasticidade cerebral até os 7 anos

 

O sistema visual humano não nasce totalmente desenvolvido; ele passa por um processo complexo de maturação que se estende até os 7 ou 8 anos de idade. Para que esse desenvolvimento ocorra com sucesso, o cérebro precisa receber imagens nítidas de ambos os olhos.

A médica pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da USP, explica que esse período é conhecido cientificamente como plasticidade neuronal do córtex visual — uma fase em que o cérebro ainda tem alta capacidade de se adaptar e corrigir disfunções em resposta aos estímulos visuais.

“Essa é uma janela de oportunidade gigantesca. A plasticidade cerebral diminui consideravelmente a partir dessa faixa [7 anos], o que dificulta uma intervenção e resulta em eficácia reduzida. Em alguns casos, pode significar a perda visual irreversível”, adverte a pediatra.

Doenças congênitas ou graves, como o glaucoma congênito, a ambliopia (olho preguiçoso) e o retinoblastoma — um câncer ocular agressivo, comum em bebês, que pode levar à cegueira e ao óbito, mas tem 90% de chance de cura se descoberto precocemente —, podem ser revertidas em até 100% caso sejam tratadas dentro dessa faixa de idade.

Sinais de alerta: O que os pais devem observar em casa

 

Muitas vezes, as crianças pequenas não reclamam que estão enxergando mal porque acreditam que o mundo embaçado ou distorcido que veem é o normal de todos. Por isso, cabe aos pais e educadores ficarem atentos aos sinais físicos e comportamentais:

Sinais Físicos:

  • Leucocoria: Reflexo pupilar branco (conhecido como “olho de gato”, visível em fotos com flash ou sob luz direta);

  • Estrabismo: Desvio constante ou frequente de um dos olhos;

  • Fotofobia: Sensibilidade exagerada à luz;

  • Lacrimação excessiva, vermelhidão ou coceira constante nos olhos;

  • Franzir a testa ou apertar os olhos para tentar focar objetos distantes.

Sinais Comportamentais:

  • Queda repentina ou histórico de baixo rendimento escolar;

  • Desinteresse por atividades que exigem esforço visual (leitura, desenhos, jogos de tabuleiro);

  • Desequilíbrio, quedas frequentes e tropeços excessivos em objetos do cotidiano;

  • Isolamento em brincadeiras coletivas ou desinteresse por interações sociais.

O perigo das telas: Musculatura travada e olho seco

 

Outro grande vilão da saúde ocular moderna é o uso abusivo de smartphones, tablets e computadores, um hábito agravado pela inserção precoce das tecnologias nas grades escolares e nas rotinas de lazer. A professora Ruth Miyuki Santo, do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da USP, alerta que o excesso de foco em distâncias curtas impede o relaxamento ocular.

“Para enxergar e focalizar objetos próximos, a musculatura do olho enrijece. Quando olhamos para longe, ela relaxa. O que acontece hoje é que não estamos relaxando nunca, principalmente as crianças. Esse esforço contínuo de perto tem acelerado o desenvolvimento da miopia em indivíduos propensos”, explica a oftalmologista.

Além disso, ao focar nas telas, o cérebro “esquece” de enviar o comando para piscar, com medo de perder quadros ou detalhes importantes. A falta de piscadas adequadas deixa o globo ocular exposto e seco, causando a chamada Síndrome da Visão Computacional, caracterizada por dor de cabeça, visão turva e fadiga ocular crônica que, a longo prazo, danificam a superfície dos olhos.

Gargalos na saúde pública e cuidados na vida adulta

 

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Embora o “teste do olhinho” seja realizado com sucesso nas maternidades logo após o nascimento, o protocolo ideal exige que bebês passem por uma nova consulta oftalmológica especializada entre os 6 e 12 meses de vida. Infelizmente, a dificuldade de acesso a especialistas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) faz com que muitas crianças só cheguem ao consultório quando o grau de deficiência visual já está avançado, comprometendo o aprendizado e a qualidade de vida.

Para além da infância, os adultos também devem manter as consultas em dia. A professora Ruth Santo lembra que doenças silenciosas como o glaucoma e a catarata (envelhecimento do cristalino) têm tratamentos e cirurgias extremamente modernos hoje em dia, que devolvem a autonomia e a produtividade rapidamente, desde que diagnosticadas cedo. Medidas cotidianas simples, como controlar o diabetes e a hipertensão, manter uma alimentação balanceada, proteger-se da poluição e do ar-condicionado excessivo, além de praticar a regra de descansar os olhos de tempos em tempos (olhando para o horizonte a cada 20 minutos de tela), fazem toda a diferença para preservar a visão.

Cuidar da visão é garantir autonomia, lazer e qualidade de vida para o futuro. Você já levou seus filhos ao oftalmologista este ano ou tem sentido aquela famosa fadiga nos olhos após passar horas no celular?

Deixe seu comentário e dúvidas aqui embaixo. Compartilhe este artigo de utilidade médica no WhatsApp com papais, mamães e grupos de escola para ajudar a identificar problemas de visão nas nossas crianças o quanto antes!

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