Um calango gigante saiu em cortejo, no fim da manhã desta terça-feira (17), ocupando a Asa Norte, bairro do centro de Brasília. A alegoria do animal típico do Cerrado – em verde, amarelo e vermelho – é a autêntica marca do bloco de Carnaval Calango Careta, desde 2015.

Diferentemente dos grandes blocos do Distrito Federal, que ficam em áreas isoladas como o Eixo Monumental e o Museu da República, o calango erguido e articulado por bambus, nos moldes do dragão do bloco de Olinda (PE) Eu Acho é Pouco, serpenteia para fazer um “carnaval de vizinhança”, ao lado de prédios residenciais. A regra é a coletividade.
A analista de sistemas Ana Bastos há 19 anos reside em Brasília e trouxe a filha Helena Louzada, de 16 anos, para aproveitar a festa.
A recifense confirma que a capital federal não deixa a desejar na hora da folia, mesmo que em uma escala menor, se comparada à de sua terra natal. “Os bloquinhos são uma delícia, há animação e tranquilidade.”


Brasília (DF), 17/02/2026 – Carnaval de rua do Bloco Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Mensagens
Para comunicar a preservação do Cerrado, o bicho é acompanhado por um enorme boneco de saruê, que muitas vezes é hostilizado por se parecer com um roedor.
Abaixo da estrutura, o bonequeiro voluntário, o educador social Gabriel Ballarini diz que adora dar vida à alegoria.


Brasília (DF), 17/02/2026 – Gabriel Ballarini veste fantasia de saruê. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
“Basicamente, tenho que acenar para a galera e pular. Pesa um pouco, tem uns quatro quilos. Mas, estou me sentindo muito orgulhoso hoje.”
O bonecão desta espécie de gambá fez sucesso com o pequeno Rui, de 1 ano e quatro meses. Os pais dele escolheram fantasiá-lo de outro animal bastante recorrente no bioma, a capivara.
Pedro Tarcísio, que trabalha com design de produtos, conta que o filho ama a percussão e é influenciado pela mãe, uma musicista.


Brasília (DF), 17/02/2026 – Pedro Tarcísio e o filho curtem o Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
“Este é o nosso bloco favorito. Mostrar os instrumentos, os animais o deixam muito apaixonado por tudo isso.”
Estética
A estética do bloco é marcada por uma mescla de cultura popular e psicodelia das roupas de artistas com grandes asas, apeados em pernas de pau, acompanhados de palhaços, acrobatas mascarados e outros circenses que mostram a direção do cortejo ao público.
Apoiadora do grupo há um ano, Vanessa Cândida Rezende veio para o gramado munida de girassóis e um regador que despeja glitter em outros foliões.
“Tenho glitter no corpo, em casa, em todos os cantos. Essa é a alegria do carnaval que levaremos para o resto do ano e, por isso, estou aqui regando um jardim de glitter.”


Brasília (DF), 17/02/2026 – Vanessa Cândido levou um regador de glitter. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Se em 2025, as homenagens à atriz Fernanda Torres, pelo filme Ainda Estou Aqui, se multiplicaram Brasil afora, em 2026, a esperança de uma nova estatueta do Oscar está registrada nas fantasias que remetem à outra produção brasileira: O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho.
Inspiração que pautou um casal presente ao Calango: a jornalista Ana Chalub e o músico Luiz Bragança.
A jornalista estava fantasiada de Dona Sebastiana, interpretada pela atriz potiguar Tânia Maria, de 79 anos, com o plus de ter um cigarrinho fake sempre à mão. Ana Chalub explica que mirou nas cenas de carnaval do filme.
“O início já ocorre em um dia de carnaval e a gente achou que tinha tudo a ver com o momento político e por ser super favorável ao filme. Para a preparação da personagem, tive até que aprender a colocar bobs no cabelo curtinho.”


Brasília (DF), 17/02/2026 – Casal se inspirou no filme O Agente Secreto. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Já Luiz Bragança apostou na fantasia de orelhão, retratado tantas vezes nas ruas do Recife e de Brasília da década de 1970. A irreverência ganhou corpo com pedaços de boia do tipo espaguete e fita crepe.
“O carnaval é o espaço de tempo para a gente tentar outras possiblidades e fazer algo que não está no nosso dia a dia. É o momento de celebrar a nossa cultura, nossa música”, festejou.
Sonoridade pede passagem
Sob as copas das árvores, o Calango tem fanfarra própria. Ali, é a Orquestra Camaleônica quem ditou o ritmo bem marcado pelo sopro dos trompetes, trombones, saxofones e potente percussão.
No repertório, muito ciranda, frevo, maracatu e hits da música popular brasileira (MPB). A canção Lucro, do grupo BaianaSystem, e Frevo Mulher, de Zé Ramalho, já viraram clássicos ecoados pelos foliões aos pulos.
Não há cordas ou abadás. A interação é bem próxima entre músicos e público, como a da estudante Mariana Junqueira Marini, de 15 anos, fantasiada de uma personagem do desenho Backyardigans.


Brasília (DF), 17/02/2026 – As amigas Mariana Junqueira (e), Isis Rocha (c) e Helena de Aragão (e) participam do carnaval de rua. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
“Minha mãe sempre me levou para o carnaval, mas eu não curtia muito. Agora, gosto mais porque venho com minhas amigas.”
Amiga que não economizou na tinta azul para ficar parecida com o personagem de infância, como conta Isis Frank Rocha, de 16 anos.
“Minha mãe ajudou a me pintar. Eu gosto de brincar no carnaval, de ser engraçada. Não é só para ficar bonita.”
Vibração sem idade
O Calango Careta mistura no mesmo espaço crianças pequenas, jovens e idosos.
Pela primeira vez, a performance do grupo fisgou a fisioterapeuta Gabriela Barcellos, grávida de 8 meses de Henrique. Os planos dela são de criar o filho curtindo o carnaval, ao lado da enteada de 6 anos, que vai ao bloco interessada em jogar espuma e confetes para cima.


Brasília (DF), 17/02/2026 – Gabriela Barcellos participa do Bloco Calango Careta. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
“Aqui em Brasília, a cultura do carnaval tem aumentado bastante.”
Há anos, quem vem guiada pelo estandarte colorido do Calango é a aposentada Mara Carvalho. Aos 75 anos, ela trouxe para mais um carnaval a filha, o genro e o neto. A missão é perpetuar a tradição.
“Desde pequenininha, eu gosto muito de carnaval. Minha mãe, minha irmã, meu irmão, todo mundo brincava.”


Brasília (DF), 17/02/2026 – Mara Carvalho levou a família para manter a tradição de carnaval. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A folia da dona Mara não terminou no Calango Careta. Nesta terça-feira, ela promete emendar pelas ruas de Brasília outro bloco, o Pacotão, famoso pela sátira política.
Calango Careta
Desde 2015, é tradição que o local de saída do Calango Careta às ruas seja divulgado horas antes do cortejo, para criar expectativa.
O Calango Careta também inspirou até fábulas escolares locais, como A Fábula do Calango Careta ou a Folia de Mil Dias, usada em escolas da Asa Norte para ensinar sobre cultura popular, pertencimento e ocupação pública.
Na sexta-feira (20), será exibido em sessão única no Cine Brasília o documentário Calango Careta: 10 Anos de Eterno Carnaval, que conta a história de um grupo de amigos que construiu um calango gigante para brincar o carnaval nas ruas de Brasília e se tornou um dos ícones da cidade. O bloco que virou movimento, a brincadeira que virou tradição.
>> Veja as imagens do Calango Careta