A viga no olho do Tio Sam

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✏️ Resumo rápido:

Há uma velha piada de salão que diz que o cinismo é a única homenagem que a hipocrisia presta à virtude. Se for verdade, Washington acaba de erguer uma catedral de homenagens ao bom mocismo global.

Então tá!

A nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil chega embalada em um embrulho perfumado de preocupações humanitárias e ecológicas. Alegando proteger o planeta do desmatamento e defender o trabalhador do fantasma do trabalho escravo e infantil, os americanos decidiram que nossa economia merece o castigo de uma sobretaxa. É bonito de ver. Comove o coração dos desavisados e arranca lágrimas dos bobos da corte da nossa própria elite cosmopolita, sempre pronta a se autoflagelar em público sob o chicote do colonizador.

O problema de subir em um púlpito tão alto para dar sermão nos outros é que a vista lá de cima costuma revelar os próprios podres. E, no caso da pátria da liberdade, o telhado não é apenas de vidro; é de cristal finíssimo e já está estilhaçado.

Crianças na engrenagem

Enquanto o Escritório de Comércio americano (USTR) rasga as vestes contra as supostas “práticas irrazoáveis” do Brasil, o Departamento de Trabalho deles (DOL) corre para tentar apagar um incêndio doméstico vergonhoso: o renascimento do trabalho infantil em solo norte-americano.

Não estamos falando de adolescentes entregando jornais no subúrbio ou ajudando na mercearia da esquina. Falamos de exploração pesada, industrial, daquela que faria Charles Dickens se sentir em casa.

Nos últimos anos, a fiscalização federal americana flagrou crianças e adolescentes trabalhando em turnos noturnos exaustivos, limpando serras elétricas e maquinário pesado em frigoríficos gigantes — como os operados pela Packers Sanitation Services (PSSI), que prestava serviços até para a multinacional JBS. Outros tantos menores foram resgatados operando fritadeiras e maquinários perigosos em franquias do McDonald’s.

A resposta dos legisladores estaduais americanos a essa barbárie não foi endurecer a fiscalização. Pelo contrário. Diversos estados governados pela direita puritana correram para aprovar projetos que flexibilizam as leis de proteção à infância, reduzindo as restrições de horários e permitindo que menores trabalhem em setores de risco. É o capitalismo de fronteira retrocedendo dois séculos na marra, sob o pretexto de combater a “escassez de mão de obra”.

A escravidão com CNPJ

Se o trabalho infantil é varrido para debaixo do tapete da cozinha do fast-food, o trabalho análogo à escravidão nos Estados Unidos ganhou uma roupagem jurídica impecável. Chama-se sistema prisional.

A Walk Free e outras organizações de direitos humanos cansam de apontar o óbvio: a 13ª Emenda da Constituição americana aboliu a escravidão, exceto como punição por um crime. Essa pequena cláusula de rodapé transformou o sistema penitenciário privado dos EUA em uma imensa plantação moderna. Detentos trabalham para grandes corporações por centavos de dólar a hora, sob a ameaça constante de isolamento ou perda de benefícios caso se recusem. É o trabalho forçado estatal, legalizado e altamente lucrativo.

Fora das grades, a exploração dos imigrantes sem documentos na agricultura e na construção civil alimenta redes de tráfico humano que operam na base da servidão por dívidas. Mas, para o USTR, o problema de concorrência desleal no mundo é o nosso Pix.

O chocolate amargo e a floresta alheia

A hipocrisia não para na fronteira. Nos tribunais federais americanos, gigantes da alimentação sediadas em Nova York ou Chicago enfrentam há anos processos por lucrarem conscientemente com o cacau produzido por trabalho escravo infantil na Costa do Marfim. O chocolate que adoça o paladar do consumidor em Manhattan é colhido por crianças traficadas na África Ocidental, sob o olhar complacente das matrizes corporativas que agora exigem “padrões éticos” do etanol e da carne brasileira.

E o que dizer do meio ambiente? O governo norte-americano, que devastou suas próprias florestas temperadas para dar lugar ao império da soja e do milho e que patina na regulação de crimes ambientais corporativos investigados a duras penas pelo FBI, quer posar de guardião da Amazônia para justificar o protecionismo de seus produtores agrícolas. O desmatamento no Brasil, que por sinal vem registrando quedas históricas e comprovadas cientificamente, vira o álibi perfeito para uma barreira tarifária que nada tem de ecológica e tudo tem de eleitoral.

O preço da dignidade

Não se trata de defender os nossos erros. O Brasil tem, sim, feridas abertas na questão ambiental e trabalhista que precisam ser tratadas com rigor e sem complacência. Mas o tratamento dessas feridas é uma tarefa nossa, da nossa soberania e das nossas instituições.

O que não se pode aceitar é que o xerife do mundo utilize a retórica dos direitos humanos como um porrete comercial para proteger seu próprio mercado ineficiente. Se os EUA querem mesmo um comércio baseado em valores éticos, que comecem limpando o sangue dos frigoríficos de Iowa, libertando os escravos de suas prisões privadas e tirando as crianças americanas de perto das serras industriais.

Até lá, as tarifas de Washington não passam de pirataria diplomática. E contra piratas, a única linguagem que funciona é a da firmeza e a da reciprocidade.

Então tá!

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