A pátria de chuteiras multicoloridas e alma vazia

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✏️ Resumo rápido:

Dizia Nelson Rodrigues que a Seleção Brasileira era a pátria de chuteiras. Se o bom Nelson acordasse hoje, ele reescreveria a máxima: somos a pátria das chuteiras personalizadas, dos cortes de cabelo milimetricamente desenhados no gel e das coreografias ensaiadas para o TikTok. A alma, essa ficou em algum free-shop da Europa.

O vexame contra a Noruega não foi um acidente tático. Foi o diagnóstico final de uma geração sui generis, o ápice de um processo de gentrificação do nosso futebol. Temos em campo onze CNPJs de sucesso, marcas globais, milionários precoces que brilham sob o sol europeu, mas que, ao vestirem a camisa amarela, parecem sofrer de uma súbita crise de labirintite existencial. Não há criação, não há o drible moleque, não há a raça que o torcedor exige de quem tem o privilégio de herdar o manto de Pelé, Tostão, Garrincha, Zico, Romário ou dos Ronaldos.

Trocou-se a bola pela birra… O drible pela política rasa de rede social.

Há pelo menos duas Copas do Mundo o brasileiro vive esse conflito esquizofrênico: o coração ensaia torcer, a memória afetiva tenta empurrar, mas os nossos “craques” logo nos trazem de volta à realidade cinzenta do futebol moderno-comercial. Ontem, bastou uma Noruega burocrática, que mal correu e apenas andou em campo, para dominar um Brasil desértico de ideias e de brio. Aquela camisa amarela, que já impôs respeito pelo simples fato de existir no túnel de acesso ao gramado, hoje é tratada como um mero outdoor de patrocinadores.

O futebol brasileiro não acabou. Seria uma heresia dizer isso no país que respira esse jogo na várzea, nas esquinas e nos terrões. O nosso futebol só está dormindo, sequestrado pelo marketing e pelo deslumbre de uma geração que confunde engajamento digital com bola na rede.

Temos mais quatro anos de jejum pela frente. Que o próximo ciclo não nos traga apenas novos nomes, mas uma renovação de propósitos. O torcedor não exige o título invicto, exige o respeito, o sentimento e a dignidade de quem sabe o peso da história que carrega nas costas. Até lá, o sonho fica em compasso de espera, aguardando o dia em que o futebol arte volte a calçar chuteiras pretas, correr e chutar o pênalti sem parar, e a jogar por nós, não pelos likes.

Então tá!

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