Se tem uma coisa que a história recente do Brasil nos ensina, é que a “aparência contida” da nossa extrema-direita tem o prazo de validade de um iogurte esquecido no capô de um carro em Bangu.
O sujeito passa toda a campanha, e especialmente o segundo turno, fazendo um esforço performático fenomenal. Treina a respiração, tenta não xingar jornalistas, segura o tique de fazer arminha com a mão e vende a imagem de um ser humano razoavelmente civilizado. É o “banho de loja democrático”.
Aí vem o resultado das urnas. E o que acontece? A maquiagem derrete na primeira garoa institucional.
Derrotado, mas embalado por um capital político de mais de 60 milhões de votos, o herdeiro do capitão vai para o microfone. Em um primeiro momento de coragem cênica, estufa o peito e garante: “Não saio do país! Serei a oposição ferrenha!”.
Corta para 24 horas depois: o sujeito se escafedeu para os Estados Unidos.
Atravessou o Atlântico com o medo de quem sabe o tamanho do “cacho” de processos e investigações que o espera por aqui. E de lá, no conforto de um condomínio na Flórida cercado por outlets e patetas com bandeiras, resolveu governar um país paralelo.
O mais fascinante é o delírio literário das cartas e comunicados divulgados…
Primeira versão: O cara acorda se sentindo Napoleão Bonaparte no exílio.
Segunda versão: Rebaixa um pouco a bola e vira um reizinho injustiçado.
Terceira versão: Baixa o tom do delírio absolutista e tenta voltar a ser só um “líder oposicionista perseguido”.
É a política transformada em surto psicótico com carimbo de imigração. O sujeito quer ser o De Gaulle brasileiro, mas escolheu a Disney como QG.
A parte boa de tudo isso, e que a gente precisa desesperadamente acreditar para não enlouquecer, é que talvez, só talvez, essa fase ridícula da política tupiniquim esteja caducando.
Existe uma oportunidade de ouro posta na mesa para a direita brasileira que é a chance real de se “endireitar”. De jogar a dinastia e seus filhotes na lixeira da história política, lavar as mãos e construir um projeto conservador ou liberal que não dependa de golpismo, de culto à personalidade ou de fetiche por militar.
O diagnostico está posto, mas o nó cego é o de sempre, eleitorado órfão com dezenas de milhões de votos. A massa engajada, radicalizada e acostumada a consumir o desvario diário do ecossistema de fake news.
O medo da liderança. A dita “direita civilizada” tem diante de si uma janela histórica para defenestrar a família, mas treme nas bases. O medo de perder a boquinha dos votos do eleitorado radicalizado no curto prazo fala mais alto do que a coragem de refundar um projeto sério.
A pergunta que fica é se os caciques da direita tradicional vão criar coragem para pegar a caneta e assinar o divórcio desse fanatismo, ou vão continuar reféns de um clã que manda ordens direto do setor de promoção de supermercado em Orlando?
A oportunidade está dada. O espetáculo do exílio voluntário já virou piada. Resta saber quem vai ter a audácia de enterrar o defunto político ou se vão continuar batendo continência para o fantasma da Flórida.
Pensa nisso.
Então tá.
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