O Brasil ainda é um clube privado disfarçado de República

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✏️ Resumo rápido:

Há algo de profundamente brasileiro nessa história envolvendo Hugo Motta, Ciro Nogueira, jatinhos, banqueiros, hotéis de luxo e encontros cercados por segurança digna de filme sobre oligarcas russos.

Não é exatamente corrupção no sentido cinematográfico que o brasileiro aprendeu a imaginar, malas de dinheiro atravessando estacionamentos subterrâneos ou deputados fugindo da Polícia Federal de cueca. É algo mais sofisticado. Mais elegante. Mais brasileiro versão business class.

É a promiscuidade social entre poder político e poder econômico transformada em paisagem natural.

O sujeito vira presidente da Câmara dos Deputados e, de repente, começa a circular em jatinhos de banqueiros investigados, hospedado em hotéis onde a diária custa mais que o salário mensal de metade do país. E tudo tratado como se fosse apenas uma infeliz coincidência social. Uma espécie de “ah, nos encontramos casualmente em Lisboa”.

Claro. Quem nunca?

O detalhe mais revelador da investigação não é nem o hotel cinco estrelas. Nem o jatinho. Nem a conta de milhares de euros. É a obsessão paranoica com privacidade.

“Pode ser o Papa que não pode entrar.”

A frase parece saída de uma mistura de série da HBO com reunião de condomínio de bilionário. E talvez seja justamente isso que mais escancara o abismo brasileiro: essa elite política-financeira já não se comporta como representantes públicos. Age como aristocracia patrimonial.

O Brasil aboliu oficialmente os títulos de nobreza em 1889, mas manteve intacta a lógica da corte.

Os personagens mudam. A liturgia permanece.

Tem sempre um operador financeiro muito próximo do poder. Tem sempre parlamentares circulando entre empresários “generosos”. Tem sempre encontros discretos em restaurantes caros. E há sempre um esforço quase cômico para esconder aquilo que, em tese, seria perfeitamente normal.

Porque veja a contradição maravilhosa: se não existe irregularidade alguma, por que o aparato clandestino? Por que elevadores monitorados? Por que preocupação com quem olha? Por que áreas isoladas? Por que a atmosfera de conclave mafioso em filme italiano?

Político honesto adora publicidade. Quem vive de voto gosta de ser visto. O segredo excessivo geralmente aparece quando a convivência não sobreviveria bem à luz do dia.

E aqui aparece o aspecto mais importante da história: o escândalo talvez não seja jurídico. Talvez seja moral. Talvez seja estrutural.

A verdadeira obscenidade brasileira não está apenas no eventual crime. Está na naturalização de uma elite política que já não consegue sequer distinguir o espaço público do lobby privado.

O presidente da Câmara dos Deputados não deveria viajar em avião de banqueiro. Não deveria aceitar hospedagem paga por empresário interessado em Brasília. Não deveria frequentar esse tipo de circuito nebuloso onde negócios, política e influência se misturam como uísque caro em lounge de aeroporto internacional.

Mas Brasília criou uma cultura em que isso deixou de parecer aberração para virar networking.

E o mais curioso é que todos os envolvidos parecem genuinamente perplexos quando a população reage mal. Como aristocratas do século XVIII sem compreender exatamente por que os camponeses estão irritados.

A frase clássica das crises brasileiras virou quase um gênero literário:
“Não sabia de nenhuma irregularidade.”

Nunca sabem.

Os empresários nunca sabem.
Os políticos nunca sabem.
Os assessores nunca sabem.
Os partidos nunca sabem.

O Brasil talvez seja o único país do planeta administrado por adultos permanentemente surpreendidos pelos próprios amigos.

E há ainda um elemento tragicômico nisso tudo: enquanto o país discute déficit fiscal, corte de gastos e austeridade, parte da elite dirigente continua vivendo numa bolha internacional onde Lisboa funciona quase como extensão informal de Brasília. Uma espécie de capital paralela do conchavo tropical.

A República brasileira possui eleições, Supremo, Congresso, bandeira, hino e cerimônias oficiais. Tudo muito bonito. Mas às vezes basta seguir o rastro dos jatinhos para perceber que o país continua funcionando como um grande clube fechado, frequentado pelos mesmos sobrenomes, pelos mesmos interesses e pelos mesmos garçons discretos servindo vinho caro em reuniões que “não aconteceram”.

O problema do Brasil nunca foi falta de democracia formal.

O problema é que nossas elites continuam tratando o Estado como camarote.

Então tá!

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