Dez anos após o rastro de destruição deixado por um forte vendaval em 2016, a Câmara Municipal reuniu voluntários, comerciantes e forças de segurança para celebrar o legado de união da cidade.
JARINU – Há exatamente 10 anos, no dia 5 de junho de 2016, Jarinu viveu um dos capítulos mais desafiadores de sua história. Um forte temporal, acompanhado por uma ventania com força de tornado, transformou ruas, destruiu casas e comércios, e mudou vidas em poucos segundos. Para marcar uma década de superação, a Câmara Municipal realizou a Sessão Solene “Memórias que o tempo não levou”, prestando uma homenagem emocionante àqueles que ajudaram a reerguer o município.
O evento foi idealizado pelos vereadores João Lorencini, Eremilton Paraíba, Raimundo Queijo e Clóvis Calixto, e contou com a presença do vice-prefeito João Davi e do presidente da Casa, vereador Rogério Sapão. A noite foi marcada por vídeos de retrospectiva, entrega de certificados e discursos que resgataram bastidores inéditos da época.
Confira os principais destaques e as falas mais marcantes da solenidade:
“Se o vento foi forte, a nossa união foi maior”
Os discursos de abertura reforçaram que a maior riqueza de Jarinu durante a crise foi a capacidade de mobilização de sua gente. O vice-prefeito João Davi relembrou o sentimento de ver a cidade se unindo para recomeçar do zero:
“Muitos aqui tiveram prejuízos incalculáveis, perderam o pouco que tinham, mas se o vento foi forte, a nossa união foi maior. Eu vi Jarinu se levantar, vi vizinhos ajudando vizinhos, empresários doando material, servidores públicos virando noite e voluntários das cidades vizinhas chegando com ferramentas na mão. O tornado passou, mas deixou uma lição: sozinho ninguém reconstrói nada.”
O presidente do Legislativo, vereador Rogério Sapão, destacou o papel de acolhimento que os prédios públicos assumiram logo após o desastre, citando o Ginásio de Esportes e o CCI, que se transformaram em grandes centros de triagem para cobertores, móveis e roupas.
Histórias de bastidores: do “pão molhado” ao “japonês kamikaze”
Um dos momentos mais tocantes da noite foi o pronunciamento de Miguel Tadao, que discursou em nome de todos os voluntários. Ele relembrou a exaustão das equipes que trabalhavam mais de 15 horas por dia debaixo de chuva e frio:
“Não era mérito meu, da Defesa Civil ou dos Bombeiros; era mérito de todos que se uniram. A gente começava os trabalhos às seis, sete da manhã e ia até o corpo cansar, dez ou onze da noite, com aquela gratidão e vontade de voltar no dia seguinte e continuar sendo útil. Foram grandes heróis, mesmo sem capa, sem habilidade e sem recurso.”
O vereador João Lorencini relembrou como pequenos gestos de carinho da população davam forças para quem estava na linha de frente. Ele e Miguel citaram episódios em que moradores ofereciam comida no meio da rua:
Miguel Tadao: “Num dia chuvoso, a gente na praça trabalhando, cortando árvore, chegou uma senhora com um copo de café e um pão molhado, porque estava chovendo, e disse: ‘Meu filho, para, come esse pão. Eu queria trazer mais coisas, mas é o que eu tenho’. Foi um dos pães mais gostosos que comi na minha vida.”
Vereador João Lorencini: “Nós estávamos lá, chovendo, seis e pouco da tarde, com uma fome de torcer a barriga. Encostou um cidadão em um carro prata, abriu a tampa traseira com duas bandejas de enrolado de presunto e queijo e suco de laranja. Foi o enrolado de presunto e queijo mais gostoso que comi na minha vida. A solidariedade veio de todos.”
Lorencini também arrancou risos e aplausos da plateia ao relembrar a parceria com o voluntário Miguel, a quem apelidou carinhosamente de “japonês kamikaze” por sua coragem e experiência em terremotos no Japão, e contou sobre os perigos da operação — incluindo o dia em que o amigo pisou em um enxame de abelhas arapuá a sete metros de altura no meio de uma árvore.
Comércio em escombros e a segurança contra saques
O empresário Moacir Rauber, das Lojas Itália, representou o setor comercial e relembrou o choque ao receber a notícia de que sua loja havia sido completamente destruída pelo vento, comparando o cenário com o de um front militar:
“Quando cheguei em casa de manhã cedo, já com o dia claro, olhei para a minha mulher e falei: ‘O soldado chegou da guerra’. Porque era como a gente se sentia. No dia seguinte, quando amanheceu e a gente pôde enxergar melhor o que tinha acontecido… Não dava para acreditar.”
Moacir também recordou ter sido questionado em uma viagem logo após o desastre se a cidade havia sumido do mapa, ao que rebateu com orgulho: “A imprensa entrou lá e falou que a cidade foi destruída, que não existia mais. Mas a imprensa esqueceu de voltar lá e mostrar o quanto aqueles moradores são unidos. A cidade existia, sim, feita de um povo guerreiro que a reconstruiu.”
A primeira noite de escuridão total também exigiu pulso firme das forças de segurança. O vereador e guarda municipal Clóvis Calixto relembrou que a equipe era pequena para conter tentativas de saques aos comércios que haviam desabado:
“Nossas equipes eram poucas, tivemos que convocar todos. Não era um pedido, era uma ordem: todo mundo da área da segurança vinha até a base e se organizava para ir para a rua para proteger os comércios que o pessoal estava saqueando, os que ficaram em pé. (…) O povo jarinuense é de coração bom, e espero que os jovens que estão vindo agora continuem com esse coração bom e não deixem esse amor acabar.”
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Emoção na homenagem póstuma à Cleonice de Souza
Nenhuma perda foi maior do que a da família de Cleonice de Souza, a enfermeira e mãe dedicada que foi a única vítima fatal daquela noite trágica, atingida por um raio. Em um dos momentos de maior emoção da solenidade, o vereador João Lorencini revelou um ato de generosidade de Cleonice instantes antes do acidente:
“A dona Cleonice estava nesse ponto de ônibus, chovendo, e ela estava de guarda-chuva. Na frente dela, tinha outro rapaz que estava indo para uma empresa, só que ele estava na chuva. E ela pediu para trocar de lugar com ele: ‘Fica aqui atrás que está coberto e você me dá o seu lugar, eu estou com o guarda-chuva aqui’. Instantes antes do acontecido… Os desígnios de Deus ninguém sabe. A solidariedade e a união são o único caminho.”
O filho de Cleonice, Wesley, recebeu uma placa e um quadro memorial produzido pelo artista jarinuense Jonas Prado, sendo aplaudido de pé por toda a Câmara Municipal. Ao final, dezenas de voluntários e colaboradores de época foram chamados para receber o certificado de gratidão do município.
E você, morador de Jarinu? Onde você estava na noite do dia 5 de junho de 2016? Lembra-se da corrente de solidariedade que tomou conta do seu bairro nos dias seguintes ao vendaval?
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