Amostras furtadas na Unicamp saíram de área de biossegurança nível 3, a mais alta do Brasil. Professora responderá em liberdade por expor a saúde pública a perigo.
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CAMPINAS – Novos detalhes sobre o furto no Instituto de Biologia da Unicamp, ocorrido originalmente em fevereiro, trazem um alerta sobre a gravidade do incidente. De acordo com o Termo de Audiência da Justiça Federal, as amostras virais foram retiradas de uma área de Nível de Biossegurança 3 (NB-3). O material foi recuperado pela Polícia Federal (PF) escondido em freezers da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) e até mesmo descartado em lixeiras comuns dentro da universidade.
O que significa o “nível de biossegurança 3” (NB-3)?
O sistema de classificação de risco biológico no Brasil divide os laboratórios em quatro níveis. O NB-3 é destinado ao trabalho com agentes exóticos ou nativos que podem causar doenças sérias ou potencialmente letais após a inalação.
O nível indica alto risco individual e moderado para a comunidade. Exige acesso controlado, ventilação específica e descontaminação rigorosa de resíduos. Como exemplos estão os vírus como o HIV e a bactéria do Antraz, que são manipulados sob essas diretrizes. A manipulação desses agentes fora de um ambiente NB-3, como ocorreu no caso da Unicamp, configura um risco severo à saúde pública.
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Riscos à saúde pública
A professora doutora Soledad Palameta Miller, de 36 anos, coordenava o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos. Segundo as investigações, ela não possuía autorização de acesso à área NB-3, utilizando uma orientanda de mestrado para ingressar nos locais e subtrair as caixas de amostras.
O ponto mais crítico apontado pela Polícia Federal foi o descarte indevido. Frascos com vírus foram localizados em lixeiras de uso comum no Laboratório de Cultura de Células, sem o devido processo de esterilização final (autoclave), expondo funcionários da limpeza e outros pesquisadores a um perigo direto e iminente.
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Liberdade provisória e medidas cautelares
Apesar da gravidade técnica do fato, a juíza Valdirene Ribeiro de Souza Falcão concedeu liberdade provisória à docente na tarde de terça-feira (24). A magistrada considerou que Miller é ré primária, possui residência fixa e é mãe de duas crianças pequenas. No entanto, a professora deverá cumprir regras estritas.
Ela pagou fiança de dois salários-mínimos, está proibida de entrar nos laboratórios da Unicamp envolvidos e teve o passaporte retido, estando proibida de deixar o país ou a cidade de Campinas por mais de cinco dias sem autorização.
Crimes e sindicância interna
Soledad responderá por três crimes principais: transporte irregular de organismo geneticamente modificado (OGM), exposição de terceiros a perigo de vida e fraude processual. A Unicamp instaurou uma sindicância interna para apurar como os protocolos de segurança foram burlados e se houve falhas no monitoramento do patrimônio científico.
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