Então tá! EUA invadem a Venezuela

PUBLICIDADE

Continua depois da publicidade

Por Fausto Picarelli

Olá!

O Ano Novo mal tirou o confete do cabelo e a história, com seu timing impecável, resolveu reprisar um de seus clássicos B: a intervenção americana na América Latina. Mas desta vez, o roteiro veio sem disfarces. Se antes a desculpa era salvar a democracia ou combater o comunismo, agora a sinceridade é tão brutal que chega a ser cômica. Bem-vindos ao ano de 2026, onde a diplomacia do porrete finalmente admitiu que só estava interessada na carteira da vítima.

A operação começou como um reality show. Sem anúncio oficial, sem nota do Pentágono. Apenas um tuíte de Donald Trump, o showman-em-chefe. “Maduro foi capturado”. Simples assim. O que se seguiu foi o caos televisionado: explosões em Caracas, uma vice-presidente pedindo “prova de vida” de seu chefe, e a Procuradoria-Geral dos EUA, agindo como o departamento de legalização da Casa Branca, indiciando o sequestrado por narcotráfico. A coreografia é antiga: primeiro a ação, depois a justificativa.

O próprio Trump, em coletiva, descreveu a operação com o entusiasmo de quem narra o último episódio de “O Aprendiz”. Descreveu o “belo trabalho” de seus “guerreiros”. É a guerra como entretenimento, transmitida ao vivo para o deleite do público interno. E o New York Times, aquele jornal que alguns daqui daqui, acreditem, adoram chamar de “comunista”, foi obrigado a dizer o óbvio em editorial: a ação foi “ilegal e imprudente”.

Mas a melhor parte da peça veio logo depois. A desculpa oficial, a “guerra às drogas”, durou menos que um story de Instagram. Poucas horas depois, o próprio Trump, com a sinceridade de um vendedor de carros usados, confessou o verdadeiro motivo. Disse que vai “entregar o petróleo da Venezuela a empresas dos EUA”.

Acabou o teatro. Acabou a farsa de combater um cartel supostamente liderado por Maduro. A sinceridade foi desarmante. Não é sobre drogas. Não é sobre democracia. É sobre petróleo. É sobre expulsar a China do nosso quintal e garantir que as petroleiras americanas tenham acesso a um dos maiores tesouros do continente. É a Doutrina Monroe sem maquiagem. É o “Big Stick” sem o veludo na ponta. É a confissão em rede internacional de que a política externa americana, sob esta gestão, é apenas uma subsidiária de suas grandes corporações.

E enquanto a poeira assenta em Caracas, a onda de choque chega a Brasília. Como bem notou a jornalista Daniela Lima, a ação na Venezuela reforça, e muito, o temor de uma intervenção na eleição brasileira. O recado é claro: se fazemos isso com um país que tem petróleo, imaginem o que não podemos fazer com um que, além do petróleo, tem as terras raras e as comodities que nos interessam muito. É uma demonstração de força, um aviso aos navegantes do sul do Equador.

E a nossa plateia, como sempre, se dividiu no Fla-Flu ideológico. A direita, a mesma que aqui defende a ditadura militar que tomou o país por 21 anos, e há pouco quase instalou uma nova, celebrou a queda do ditador venezuelano. A esquerda denunciou a quebra da soberania de um pais sul-americano. Javier Milei, na Argentina, isolado, deu pulos de alegria. Já Lula, com a sobriedade do cargo exige, chamou a ação norte americana de “inaceitável” e convocou uma reunião com seus ministros civis e militares. Enquanto o governador de Roraima, na fronteira com o país invadido, já se preocupa com a conta que vai chegar nas suas terras na forma de uma nova onda de refugiados. Porque a festa dos impérios é sempre paga pela vizinhança.

E assim, o novo ano começa com um roteiro velho, mas com um final surpreendentemente honesto. A lei do mais forte foi aplicada, e o agressor nem se deu ao trabalho de inventar uma boa desculpa. Admitiu que era pelo dinheiro. Talvez seja um avanço. A hipocrisia, afinal, é muito mais cansativa. Agora, pelo menos, sabemos exatamente com quem estamos lidando: não com um estadista, mas com um CEO. E o mundo é apenas o seu conselho de administração.

Então tá.

Feliz 2026

Assista no YouTube: Clique aqui

Últimas

PUBLICIDADE

Rolar para cima